sexta-feira, 7 de março de 2014

A carga

Josualdo. Mas, pode chamar de Jó.
Carregando no peito as condecorações de uma noite violenta de cachaça, no dorso as pétalas de uma cerca de arame, Jó se levanta às quatro e meia da manhã e tomando um amargo café, dá uma estilingada de um cuspe rançoso e longínquo, daqueles extensos.
Era a bile encharcada de desilusões.
Seguindo cambaleando pelo único quarto, apanha a camiseta desbotada - a mesma do ano passado - e parte rumo ao seu destino bestial.
Já parte o céu o sol do meio-dia. Entre ruelas e gigantes de mármore, concreto e vidro, o animalzinho percorre seu mundo farejando papel, lata, garrafas e vez em quando encontra neste mundo onde comer e beber por um tostão.
Jó se acha vital para o mundo de um mar gigante, o oceano apenas lhe regurgitaria, não fossem tantas marés para se preocupar.
- Mais um aqui, chefia.
- Esse não é dessa leva. Que tá fazendo aqui? Identificação?
- Não sabemos ainda... Vou mandar o Baiúca averiguar. Oh, Baiúca, chega aqui!
- Não, Mendonça, deixa quieto. Manda pra vala sem queimar tempo de ninguém. Se tivesse algum chegado já tavam aí chorando e gemendo no vale de lágrimas.
A gargalhada ecoa, os mortos fedem e Jó de besta passou a anônimo.
Assim como veio ao estábulo, se foi.

Ivna Alba

Um comentário:

Raul Drewnick disse...

Ivna, caramba! Texto de arrepiar. Coisa dessas que arranham a alma. Curto e certeiro como um punhal! Entranhas à mostra. Vida, morte, todo esse espetáculo que se encena e reencena para nós todos os dias. Que força em cada palavra. Todo um ambiente criado em um minuto! Salve, menina!