Como se não bastassem os vinte anos, sem ninguém ao redor, Catarina inventou de recolher em seu baú de músicas e histórias sofridas, dezenas e milhões de timbres em modo menor. Espalhou-os todos no chão de sua sala, com piso de taco envernizado há pouco tempo e precipitou-se em lágrimas e gargalhadas convulsivas, relembrando de cada minuto e segundo auspicioso da vida.
Como se já não coubesse dentro de si, tamanha reconstrução de vida, casa, amigos, família, emprego, mas principalmente, o refazer dela mesma. Tudo foi somado, calculado, refletido e bem pensado.
Não! Catarina nunca faria algo do tipo. Pensado? Mas, naquela tarde de 17 de julho, ela fez. Planejou as páginas em branco de sua mais nova obra, apontou todos os grafites e esferográficas, desembolsou meia dúzia de taças de vinho, acendeu o charuto do pai - cubano legítimo - e pôs tudo para fora: seios, pernas, coxas, ombros, costas, pélvis, pênis, mãos, dedos, pés, joelhos, pescoços, nucas, até chegar à boca. Ao lado desta, um sinal da candura e disfarce de suas intenções.
Ela queria, intensamente! Mas, onde havia tal coragem para pegar-lhe o tesouro escondido no recanto daqueles lábios pequenos e finos?
Afastou-se andando taciturna, enquanto a Nara dizia sussurrando levemente:
- Eu amei. E amei, ai de mim, muito mais, do que devia amar!
Ivna Alba
sábado, 7 de novembro de 2009
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
E então, meu amigo...
Então, quando as coisas apertam, eu sento e choro um pouquinho.
E o mundo não parece tão grande, nem tão pequeno...
A lágrima derreterá antes que eu me vá, deixando um lastro de rigidez e frialdade em meu peito.
Assim como o barco que vai e volta, penso que tudo não passa de maré.
Ivna Alba
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
As coisas do mundo, como são...
E cá estou eu, em meio à sala/cozinha gelada da minha casa, com o note aceso, minha caneca, lápis e bloco da pinacoteca, enquanto penso em como as coisas se romperam e os meus sonhos saltaram em meu colo, repentinamente, com a selvageria de um leão corrompido pela fome instintiva.
Há três meses atrás e quatorze dias atrás eu me achava sorumbática, em algum lugar distante dessa cidade ensandecida, e pensava: "Quando será o momento?"
Como sou dada às viagens sem explicações, bem como decisões bruscas e imediatas, aqui estou eu. Por mais que as adversidades sejam gigantescas, decidi-me a não discar o número das mesmas, muito menos dar-lhes a menor importância. Se eu o fizer, para que vim parar aqui?
A frase de ordem, desde minha partida e chegada tem sido: Seguir em frente, não importa o que se vá enfrentar. E, talvez por isso mesmo, não tenha sentido os efeitos vorazes da realidade.
Claro que eu sei tudo o que está se passando a minha volta, obviamente reconheço os tortuosos despenhadeiros que pulo ou galgo, todo santo dia, contudo prefiro sorrir a cada derrapada, entretanto desejo gargalhar da fome, do frio, do medo, da discriminação, do preconceito, da falsidade e das caras feias, que posam para minha pessoa, assim que viro as costas.
Entre um espinho e uma rocha, encontro uma rosa, um lírio, sopra uma brisa leve e sigo em frente.
Porque não há nada mais prazeroso do que a brisa leve quando a tempestade medonha, que rompeu seu peito, se vai.
Ivna Alba
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Quanta indiferença...
O que lhe acontece quando está tão triste assim?
Ninguém deveria morrer de dor, nem muito menos de solidão. Nenhuma pessoa deveria ter o peito cortado pela tristeza.
Não deveríamos conviver com a desconsideração, muito menos com o aperto no coração.
Mas, quanta indiferença...
Quanta indiferença...
Eu gosto de fazer a diferença, da melhor maneira possível.
E quando não dá para fazê-la?
Aí, meu caro amigo, eu chamar-lhe-ei para o bar mais próximo.
E na loura mais gelada, no copo cheio de ar brindaremos ao amanhã.
E que ele traga muitas gargalhadas, esperanças e o sonho do futuro do depois de amanhã.
Porque se somos incompletos, que nessa incompletude sejamos serenos, e despertemos para o que há de melhor do cotidiano.
Ivna Alba
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
As fotos
Fotos, indubitavelmente, são os piores paliativos contra a saudade!
Olhando certas imagens que fotografei do pôr-do-sol do apartamento da minha nona, minha ex-moradia, senti uma certa saudade de ver aquelas belas visões e me deixar levar por horas, pelos desenhos refeitos por cada nuvem, entrecortando os raios, emuldurando novas paisagens de um 2009 que não poderia imaginar ser tão bom.
Mas, tudo é uma grande medida paliativa, como já falei!
Lembrando que, estando lá, não era feliz, começo a repensar em muitas coisas, esquecimentos - que para algumas pessoas - eram tidos como falta de consideração, contudo nunca foram.
Sinto-me imprestável quando gosto de alguém e falho com a pessoa, por puro esquecimento e isso me faz sentir uma impotência desgraçada. Cobro-me todo santo dia mais perfeição e quando não consigo atingi-la, minhas forças se esvaem por algum ralo das horas, marcadas no cuco.
Maldita imperfeição e esquecimento!
Tentar reparar as faltas, isso é o que tento fazer e peço desculpas com quem andei falhando, ultimamente!
Ivna Alba
Olhando certas imagens que fotografei do pôr-do-sol do apartamento da minha nona, minha ex-moradia, senti uma certa saudade de ver aquelas belas visões e me deixar levar por horas, pelos desenhos refeitos por cada nuvem, entrecortando os raios, emuldurando novas paisagens de um 2009 que não poderia imaginar ser tão bom.
Mas, tudo é uma grande medida paliativa, como já falei!
Lembrando que, estando lá, não era feliz, começo a repensar em muitas coisas, esquecimentos - que para algumas pessoas - eram tidos como falta de consideração, contudo nunca foram.
Sinto-me imprestável quando gosto de alguém e falho com a pessoa, por puro esquecimento e isso me faz sentir uma impotência desgraçada. Cobro-me todo santo dia mais perfeição e quando não consigo atingi-la, minhas forças se esvaem por algum ralo das horas, marcadas no cuco.
Maldita imperfeição e esquecimento!
Tentar reparar as faltas, isso é o que tento fazer e peço desculpas com quem andei falhando, ultimamente!
Ivna Alba
domingo, 20 de setembro de 2009
A criação do nosso mundo
Eu criei um mundo lindo, dentro dos seus olhos. Era colorido e completamente preenchido de coisas boas. No meio do tudo e do nada, as músicas que lhe ensinei teciam repletas sinfonias de compassos amorosos e sedutores.
Em sete noites e sete dias eu lhe amei inteiro. E como sete é ímpar, sobrou alguém.
Sobrou-me o esquecimento, restou-me a falta de você.
Ivna Alba
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
O primeiro
Na travessa do mundo, onde eras tu, onde fui eu, o primeiro homem em teus braços a passar.
Ali me afoguei em águas profundas e negras, sentindo o borbulhar dos teus afagos, sabendo onde nem eu sabia que poderia mergulhar.
Ali onde foste minha e eu teu.
Ali no anteposto e passado composto, ali onde conheci a modorra envergonhada de teus olhos de cansaço.
Ali onde nem ao menos ao léu eu poderia ficar.
Ali onde tudo era vago caminho de entreposto e ressalvas.
Ali na aurora do teu canto e de teu ressonar.
Ali onde nem ao mesmo tempo me fizeste crer, que no anoitecer de teus passos, eu e minhas raízes, poderíamos fincar.
Ivna Alba
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Descontrução
Descontrua o tempo em mil ponteiros descompassados. Então, me responda: "Qual o segredo de se olhar no espelho, e descobrir-se mais velho a cada piscadela? Eis a ciência que nunca há de se conhecer, a menos que se dê o próximo passo para o descaramento de se ver sem roupas e sem mentiras.
Ivna Alba
sábado, 29 de agosto de 2009
Homem, Humano, Humanidade
Ao que se interessa, pois
Finda que essa chama já se põe
Emplaca, não obstante
A forma, com a qual se consagra
Desabando em clausura constante
em meio ao grito e a fome,
ao mundo e a desordem.
Circuncidando o pandemônio, a paz.
Aquém do senil, a juventude.
Enlameando os sorrisos em lágrima atroz,
Distanciando as mãos e as bocas
Ressurgindo das cinzas do vento
Carregando em si
Toda sorte de ambiguidades.
Eis o congênito acre de tuas distâncias!
Ivna Alba
Finda que essa chama já se põe
Emplaca, não obstante
A forma, com a qual se consagra
Desabando em clausura constante
em meio ao grito e a fome,
ao mundo e a desordem.
Circuncidando o pandemônio, a paz.
Aquém do senil, a juventude.
Enlameando os sorrisos em lágrima atroz,
Distanciando as mãos e as bocas
Ressurgindo das cinzas do vento
Carregando em si
Toda sorte de ambiguidades.
Eis o congênito acre de tuas distâncias!
Ivna Alba
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