domingo, 7 de fevereiro de 2010

Poema para uma menininha

Menininha de perninhas tortas, eu queria lhe tecer um mundo de cores, amores e vida!
Eu queria, menininha, mas não consegui.
Não, menininha, não chores!
Apesar da noite escura, eu te trouxe as estrelas; apesar da tarde chuvosa eu te dou um arco-íris; apesar do beijo frio, eu te dou a minha estrada...
Corre, menininha! Corre e me traz uma flor.
Pode até ser uma margarida...
Vai, menininha! Deixa que a cadeira de balanço faça o vai-e-vem com o vento!
Vai, menininha, que o mundo não foi meu, mas vai cair aos teus pés!
Vai, menininha!
Se precisar chorar, me diz que eu choro por ti!
Vai, meninha...

Ivna Alba

Toda boca tem sua focinheira

A pior mordaça é a do silêncio dos sentimentos, que não querem se pronunciar...
Que não se devem propagar!
E estamos fadados a nos prolongar nessa ação de emudecer, ao passo de que quando menos se espera, o que se poderia falar, não sai. Sente o nó? Sente aquele bolo preso na garganta? Aquelas meras e vãs palavras, presas de forma fria e calculada na campainha, fazendo uma leve cócega na língua? Sente tudo isso?
Eu sei, tantas e quantas coisas você gostaria de dizer, mas não o faz, sem nem entender o porquê.
O verbo volta ao peito, este tranca o gosto e a vida traga e bebe essa ânsia, esse verbo, e o converte à carne violentada. Com o tempo ela ficará uma palha dura, ressecada e sem sabor...
A pior mordaça é a do silêncio dos sentimentos que não são pronunciados, sem nem ao menos sabermos o porquê do vazio.

Ivna Alba

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ai, Isaura!

Ai, Isaura!
Isaura e suas unhas vermelho sangue, naquelas mãozinhas tão frágeis e apáticas, que tremiam sem forças até para segurar uma xícara de porcelana.
Quando ia para a missa aos domingos punha um vestido de flores de tons pastéis, muito esvoaçante, e corria para a beira da calçada, segurando o chapéu com as mãozinhas frágeis de unhas vermelho sangue.
Ai, Isaura!
Aquela anágua aparecendo sorrateiramente pela barra da saia do vestido de seda. Aquelas meias finas, de textura quase imperceptível, em meu tato, rasgando um gemido fino e um "ui!" de sua pequena boca cor-de-rosa... em meio a um entardecer... em meio a um desvanecer aturdida e absorto aos seios trêmulos e intactos de Isaura.
À noite, me vinha despida de vergonha e medo, enlaçava-me em beijos, carícias, sufocando meu mais profundo desejo em meio às coxas brancas e faceiras.
Isaura me traía, me comia, me despedia, me botava nu em lágrimas atrás da porta, e pela manhã não lembrava de nada, muito menos das juras que me tinha feito.
Eu, bobo, tolo de mim por completo, entrava em seu mundo e sempre caía nas suas mãos de unhas vermelho sangue.
Ai, Isaura!

Ivna Alba

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

É desse fel que sinto falta

- Sabe aquelas horas em que estiveste fazendo palavras cruzadas?
- Hum...
- Sabe aquelas tardes em que estava sentado à beira da mesa, consertando o rádio-relógio?
- Para não perder a hora do trabalho.
- Sabe aqueles dias que acrestavam mais uma primavera aos nossos lençóis limpos e brancos?
- Sei. Que mais?
- Até ali, eu amava você...
O velhote parou, levantou sem dar uma só olhadela para a velha e saiu do terraço, deixando a tarde absorver tudo e a noite vomitar estrelas.

Ivna Alba

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Cantalice

Aquela ponte elevadiça sugando seu corpo para o fundo do túnel, derramando aquele anseio, aquela vontade de potência, aquela onipresença, aquela espera por um não adeus. Para ela, era fato: vivemos para morrer. Ao menos, já havia decidido para que estavam todos, inclusive ela, no mundo. Ao menos uma resposta sã.

Cantalice subiu o quarto e último degrau do dia, adentrando apartamento, jogando as bolsas e remédios no canto escuro da sala, não só por mais uma noite, mas por toda a vida. Chegou à porta do quarto, abriu-a... Gemidos.

Os olhos embotados de lassidão, a respiração sôfrega, o desespero árduo de saber que na manhã seguinte, aquela penumbra continuaria a mesma. “Não se parta em duas, não se parta em duas”. Repetia baixinho, quase um sussurro, percebido apenas por sua consciência. Mas, como não se partir? Como não se antever em conjuntura frenética e ansiosa, diante tal quadro de voluntariedade e necessidade?

Não se deve quebrar os pontos! Não se deve entregar os pontos! Permanecer imóvel, estática e esperançosa. Era sua ação e coação durante os últimos dez anos.

Tudo começou na tarde de setembro, do dia vinte e cinco, quando irrompeu um grito e de lá, até aquela noite, sua vida tornara-se um brado único e violentado. Ela, justo ela, que sempre fora de risos e abraços, carinhos e afagos, deixara-se submergir em tamanha claustrofobia, que paulatinamente, fora se removendo em areia movediça, onde mergulhara os pés, pernas, tronco e sentia o ar passando por suas vias com complicações.

Ah, o amor! O que não fazemos pelo amor desmedido e censurado? Que forma de amar incondicional a prendera em passos furtivos e sombras? Toda a noite era a mesma forma de movimentos: sala, quarto, banheiro, cozinha, geladeira, álcool, copo, fumaça, lágrimas, faca, garfo, pratos, água, sabão, esponja, escorredor, banheiro, água, sabonete, toalha, cama e lágrimas sufocadas.

Da porta do seu quarto: gemidos!


Ivna Alba

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Não temos pão seco!

Pessoas burras e ingratas são, praticamente, unanimidade no mundo!
Não leia isso como revolta ou desabafo, mas como constatação.
Creio que já te aconteceu, caro leitor, alguma vez teres tentado ajudar alguém que precisava muito, mas por falhas de outrem, a culpa inteira caiu em cima de ti, como se quem tivesse assinado a criação do Holocausto fosse tua própria pessoa.
Ah! Isso, geralmente, ocorre comigo, mas decidi que essa será a última vez que me disporei a fazer algo por alguém.
A nossa ideologia de solidariedade, amor ao próximo e tudo que rodeia esse universo de boas ações é muito lindo. Nossa! Chego a encher meus olhos de lágrimas doces, ao encarar tamanha bondade. Entretanto, de quinta-feira, para cá, depois de receber no rosto tamanha ingratidão, estou decidida a me fechar mais uma vez.
Vamos encarar a realidade: o ser humano, abandonado, que recebe auxílio, mas ainda prefere a mão que lhe largou sozinho e arrasa com a pessoa que lhe estendeu a mão, possui no mínimo, inúmeros parafusos a menos.
Não, a pessoa não me pediu desculpas. Muito pelo contrário!
Pelas minhas costas ela me retalhou inteira; nem procurando saber o real motivo, pelo qual as coisas deram errado. Então, caríssimo ingrato, só posso dizer que seja muito feliz com sua produção ausente, com seus falsos amigos, que tenha muito prazer em fazer trabalhos que durarão mais de 16 meses para ficar prontos.
Seja muito feliz! E se por um acaso, precisar de alguém para ajudar a sair da enrascada, não conte comigo, porque "fiado", agora, só amanhã!
Eu não sei o que dói mais, se a ingratidão ou o fato de me culpar, ou ainda o não pedido de desculpas, bem como o falatório por trás, acabando minha imagem para outras pessoas. De qualquer forma, tudo magoa e dói muito.
Eu admirei, fiz o que pude e o que não pude! Fui amiga, fiel e sincera! Tratei bem, prestativa e leal!
Então, caríssimo ingrato, de hoje em diante, não temos pão seco!

Ivna Alba

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Dos desesperos e afagos

Ela o olhou com caras e bocas, remexendo lépida os quadris estreitos, como se houvesse uma cadência submetida às batidinhas suaves da caixa de fósforos, umidecida pelo gelo derretido do copo de cerveja.
Nem bem o som começou, estourou-lhe no corpo a sensação brusca de torpor, ao passo que se envolvia nos braços do homem cujo rosto sustentava uma espécie de ruga embotada - estrias cortantes, dilacerando o gélido, vago e suave constante disparate da sensação delicada de se estar ali, sozinho e zonzo.
Entraram mudos, saíram assanhados, despejaram na sarjeta meia dose de uísque barato, encharcaram o corpo de meio litro de suor amargurado do ano retrasado e caíram na esquina.
Ela, para a direita.
Ele, gauche.

Ivna Alba

sábado, 5 de dezembro de 2009

Da poesia para um amor

Caro rapaz,

Eu te peço um minuto de tua vida para ler estas poucas palavras.
Embora não pareça, eu sou aquela de modos frágeis, embaixo de uma Jericó. E, embaixo do meu travesseiro eu guardo muitos sonhos. Na verdade, eu os escondo, porque eu tenho vergonha.
Envergonho-me de sentir a face ruborizada, de ser feminina, de ser elogiada - muito embora eu goste, como toda boa moça, de ouvir elogios.
Não! Eu não tenho prospecções de formar uma família feliz, porém eu tenho desejo de construir minha vida junto a alguém, apesar de não saber se isso será possível.
Na maior parte do tempo, caro rapaz, eu sou apressada, ansiosa, dispersa, mas eu tenho muito apreço, amor e gentileza para dar, assim como desejo receber em troca.
Como eu não sou nenhum Mello Neto, para construir poesias, desfaço dos versos para criar o inverso: a prosa contínua de um moto contínuo, de um enlace que desenlace a face da minha pessoa em amor e lírica.

Ivna Alba

Esboço para a passagem do tempo

O tempo havia descrito uma parábola completa de seis meses e dezenove dias completos e ininterruptos.
Catarine levantara cedo, como todas as manhãs daquele prazo, e sentiu-se neutra. Os braços apoiados na grande janela do apartamento, as mechas louras escorrendo pelos ombros, o raio do primeiro sol desenhando-lhe o perfil na parede branca, o olhar cansado e sonolento, o frio interrompendo a respiração morna. Olhou o travesseiro e pensou em refugiar os pensamentos de modorra nele, mas nada lhe impelia a tal consequência.
Em pouco tempo a moça havia amadurecido substancialmente, e partiu do que se poderia chamar, de um estrondo de alegrias fugazes, para o cerne das decisões sensatas. Perfurou as barreiras, desenlaçou o futuro com as próprias mãos, atingiu as dezenas de soldados do batalhão das adversidades e abriu as trincheiras do campo inimigo da vida sozinha, sem o auxílio de nada, nem ninguém.
O que fazer agora? Seguir adiante - e sozinha, mais uma vez - o caminho que projetara para seus dias.
Ela perdera os contatos primordiais, tão bem como os fez. Quando o telefone chama e não se obtem resposta, dificilmente se tentará novamente. Assim acontecera, de forma sucessiva, paulatina e, após um tempo, frequente.
O sol se fazia em círculo, deixara o aspecto radial.
Um bilhete. Um nexo. Uma foto. Catarine nunca saíra bem nas fotos, gostava de tirá-las, contudo na maioria das vezes elas tremulavam; como o peixe que balançava a água calma do aquário de pedregulhos coloridos.
- Alfinete, hora do desayuno.
Uma hora ela se divertia no espanhol, outra no inglês, outra no alemão, outra no francês, mas preferia o bom e velho italiano.
Na mesa, uma porção de papéis espalhados, rabiscados e no chão da sala a carta que relera na noite anterior. A carta do pai:
- Catarine, um dia você vai se sentir só. Extremamente só. Mas, não se perturbe por isso, assim como eu fiz a escolha de um eremita, o tempo lhe dará a oportunidade de se achar nas caricaturas e sátiras dos segundos desvalidos. Assim como eu, você terá duas escolhas: seu esboço e sua obra-prima. Cabe a você saber fazer a hora da passagem de uma para outra.

Ivna Alba