Na sessão de terapia:
- Como foi sua infância?
Breve pausa. Iniciava-se uma série de palavras pronunciadas com conexão, mas balbuciadas, até desatar no mais profundo chôro.
- Minha infância foi muito feliz. Acho que não houve época mais feliz em toda minha vida.
E dentro do âmago era consciencioso que não se deve chorar por algo alegre, contudo a vaga lembrança de que se soube assim, por alguns anos, trazia aos olhos uma repleta gama de reminiscências líquidas.
Gotejavam não apenas as proezas de subir na árvore que se dizia Pé de Manga Baixinho, como liquifaziam as tormentas e as angústias de ver o antes de ontem ficar tão atrás e não se tornar o amanhã possível de seus dias.
As acerolas colhidas pela manhã em seu xale neblina, a foto sentada no colo da mãe que parecia acordar naquela hora, as pancadas da massa do pão na mesa pela tardinha, as brincadeiras com a terra, com as plantas e os ternos e eternos carinhos da mãe - inexplicável e afável sintoma de recordações felizes e admiráveis.
Passou por um momento em sua cabeça, ao entrar no corredor branco e vazio, que se sentira amada apenas na infância. E nesse breve rato sucumbiu à realidade de não ter na lembrança outra pessoa que não sua mãe, ao lhe ver, tomar nos braços, sorrir e lhe amar.
Os outros rostos?!?
Alguns nas cadeiras, estáticos, pétreos e enevoados.
O pior, não era saber-se infeliz, mas ter aquele nó de berreiro preso na garganta e reprimir-se diante de tudo e todos.
Ivna Alba
Domingo, 21 de Junho de 2009
Quarta-feira, 10 de Junho de 2009
Catamira
Esquálida!
Assim poderia ser descrita Catamira.
Definhando todo o dia mais um pouco, em todos os sentidos. Catamira era um gênero que não poderia ser chamado de mulher, não parecia haver sexo em sua pele, nem em sua vida, muito menos em seus genitais.
Criatura de quarenta anos e poucos, morava em um quitinete de cozinha, quarto e um resto de sala, onde não recebia visitas e o fogão estava quase sempre desligado. No banheiro de azulejos brancos e com lodo entre o rejuntes, acumulavam-se os resquícios de vísceras do trabalho enfadonho e demente.
Débil enfermidade de pulsações: em seu ventre eram as únicas oportunidades de se sentir viva, vez em quando, depois do almoço.
No mofo a pouco e monótona conversa do fim de dia. A solidão enternecendo o colchão furado e umedecido pelas goteiras, nos dias de inverno.
Catamira não sabia o significado de muitas coisas e pouco relutava com isso - talvez por desistência, ou por insistência em não querer se atormentar por algo que estivesse há tão longíquos tempos luz.
Mas, naquela noite fora diferente. Verdadeiramente, há muitas semanas a diversidade se categorizava-se por um abscesso recorrente e intragável na parte interna da coxa magra, quase rente à virilha. Escuro e purulento. Aquele não desistira tão fácil da mulher.
As pernas com os pêlos grudados pela água e sabão, e Catamira tentando espremer o caroço inflamado. Na desistência, melhor esfregar o resto do corpo, tocando e retocando as costelas, os seios murchos, as pernas, joelhos, braços, cotovelos, costas, as nâdegas e o ânus cheio de pentelhos.
A água escorre e Catamira sente que o resto do resto se esvai pelo ralo, e junto com ele, ela.
E o abscesso que não se transfigurava, apenas aumentava com a indiferença do mundo.
Uma mosca que vai e vem, uma vontade de nada dançava nas pupilas e ingressava na íris, circundando uma apoteose de vagar, em seu absurdo e pungente tormento.
"Que fazer, Catamira? Quem é você, Catamira? O que é você, Catamira?"
O espelho minúsculo de bordas verde-limão era embaçado com o hálito morno. Mas, pouco importava se olhar, se ao menos ela pudesse se ver livre daquele tumor, estaria satisfeita com a vida.
Na cabeça, uns poucos versos da modinha que ouvira antes de chegar em casa, a luz fraca do quarto/banheiro, os dejetos de lembranças do ano anterior e o abscesso ardendo-lhe entre as coxas.
"Pensar, é coisa para quem sabe, Catamira. Você é só mais uma criatura. É a massa, Catamira!"
Ivna Alba
Assim poderia ser descrita Catamira.
Definhando todo o dia mais um pouco, em todos os sentidos. Catamira era um gênero que não poderia ser chamado de mulher, não parecia haver sexo em sua pele, nem em sua vida, muito menos em seus genitais.
Criatura de quarenta anos e poucos, morava em um quitinete de cozinha, quarto e um resto de sala, onde não recebia visitas e o fogão estava quase sempre desligado. No banheiro de azulejos brancos e com lodo entre o rejuntes, acumulavam-se os resquícios de vísceras do trabalho enfadonho e demente.
Débil enfermidade de pulsações: em seu ventre eram as únicas oportunidades de se sentir viva, vez em quando, depois do almoço.
No mofo a pouco e monótona conversa do fim de dia. A solidão enternecendo o colchão furado e umedecido pelas goteiras, nos dias de inverno.
Catamira não sabia o significado de muitas coisas e pouco relutava com isso - talvez por desistência, ou por insistência em não querer se atormentar por algo que estivesse há tão longíquos tempos luz.
Mas, naquela noite fora diferente. Verdadeiramente, há muitas semanas a diversidade se categorizava-se por um abscesso recorrente e intragável na parte interna da coxa magra, quase rente à virilha. Escuro e purulento. Aquele não desistira tão fácil da mulher.
As pernas com os pêlos grudados pela água e sabão, e Catamira tentando espremer o caroço inflamado. Na desistência, melhor esfregar o resto do corpo, tocando e retocando as costelas, os seios murchos, as pernas, joelhos, braços, cotovelos, costas, as nâdegas e o ânus cheio de pentelhos.
A água escorre e Catamira sente que o resto do resto se esvai pelo ralo, e junto com ele, ela.
E o abscesso que não se transfigurava, apenas aumentava com a indiferença do mundo.
Uma mosca que vai e vem, uma vontade de nada dançava nas pupilas e ingressava na íris, circundando uma apoteose de vagar, em seu absurdo e pungente tormento.
"Que fazer, Catamira? Quem é você, Catamira? O que é você, Catamira?"
O espelho minúsculo de bordas verde-limão era embaçado com o hálito morno. Mas, pouco importava se olhar, se ao menos ela pudesse se ver livre daquele tumor, estaria satisfeita com a vida.
Na cabeça, uns poucos versos da modinha que ouvira antes de chegar em casa, a luz fraca do quarto/banheiro, os dejetos de lembranças do ano anterior e o abscesso ardendo-lhe entre as coxas.
"Pensar, é coisa para quem sabe, Catamira. Você é só mais uma criatura. É a massa, Catamira!"
Ivna Alba
Domingo, 7 de Junho de 2009
De amor e de bemol
Vês, minha pequena:
Eu me perdi em ti e tu em meus braços.
Escuta o barulhinho da luz do Sol e me diz
Fala baixinho, mas diz que fui eu que te criei em mim.
Deixa-me segurar em tua mão e sorrir.
Lembra daquele bemol que fiz em teu modo menor.
Correrei aos teus apelos,
Mergulhando em teu pacífico
Mas, já será tarde...
No meu amor sustenido
O teu tom desafinou no meu.
A harmonia que eu fiz você esqueceu.
O nosso arpejo nunca mais se encontrou.
E do meu allegro fez-se o adágio
Enquanto no teu scherzo esqueci
Os nossos laços.
Ivna Alba
Eu me perdi em ti e tu em meus braços.
Escuta o barulhinho da luz do Sol e me diz
Fala baixinho, mas diz que fui eu que te criei em mim.
Deixa-me segurar em tua mão e sorrir.
Lembra daquele bemol que fiz em teu modo menor.
Correrei aos teus apelos,
Mergulhando em teu pacífico
Mas, já será tarde...
No meu amor sustenido
O teu tom desafinou no meu.
A harmonia que eu fiz você esqueceu.
O nosso arpejo nunca mais se encontrou.
E do meu allegro fez-se o adágio
Enquanto no teu scherzo esqueci
Os nossos laços.
Ivna Alba
Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
O Leão está solto nas ruas...
... por descuido do seu domador!!!
"Bob Charles" é um gênio e tem bicho pra tudo nesse mundo!
Ivna Alba
Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Angelo Alba
Eu quero ter um filho!
Peguei-me pensando dias atrás, depois que conheci Você!
Eu quero ter um filho, que se chamará Angelo - assim como meu bisavô - sem acento mesmo, o tom forte no A virá com sua personalidade, que não serei eu a ditá-la.
Angelo será uma criança linda e feliz: olhos azuis e grandes, cílios pretos e longos; muito branquinho, macio, cabelos negros lisos e um sorriso de encantar o mais duro dos seres humanos. Serei sua mãe que chorará ao vê-lo deitado e quietinho em meu colo, ao nascer.
Ele sairá do meu ventre, forte, viçoso e sadio, porque obviamente eu me disporei a passar 9 meses sem fumar por ele, para que nasça perfeito. E gerarei um ser perfeito, forte e rijo para esse mundo insano.
Ele apreciará as artes, a boa música, o teatro, o cinema, gostará de beber, se quiser fumará, não sei se desejará provar maconha ou algo do tipo, mas eu quero que ele crie a personalidade dele, e sempre que precisar eu lhe direi: "Certamente, isso será melhor, meu filho!"
Angelo não será batizado, porque terá a escolha de saber o que é melhor para si, mas Você dirá se quer ou não indicar o caminho de algum lado espiritual para ele.
Antes de tudo, Angelo será um homem educado, e não dessas crianças atuais, que gritam e batem nos pais.
Angelo, desde já é amado, mais do que qualquer outro ser deste mundo, por mim.
Não sei se meu filho será uma produção independente. Isso vai depender de Você.
Mas, já me vejo grávida, com um sorriso perfeito em meus lábios ao vê-lo me chamar de Mãe, pela primeira vez.
E já me vejo plena ao receber Angelo em meus braços.
Angelo Alba: meu rebento e minha felicidade!
Ivna Alba
Peguei-me pensando dias atrás, depois que conheci Você!
Eu quero ter um filho, que se chamará Angelo - assim como meu bisavô - sem acento mesmo, o tom forte no A virá com sua personalidade, que não serei eu a ditá-la.
Angelo será uma criança linda e feliz: olhos azuis e grandes, cílios pretos e longos; muito branquinho, macio, cabelos negros lisos e um sorriso de encantar o mais duro dos seres humanos. Serei sua mãe que chorará ao vê-lo deitado e quietinho em meu colo, ao nascer.
Ele sairá do meu ventre, forte, viçoso e sadio, porque obviamente eu me disporei a passar 9 meses sem fumar por ele, para que nasça perfeito. E gerarei um ser perfeito, forte e rijo para esse mundo insano.
Ele apreciará as artes, a boa música, o teatro, o cinema, gostará de beber, se quiser fumará, não sei se desejará provar maconha ou algo do tipo, mas eu quero que ele crie a personalidade dele, e sempre que precisar eu lhe direi: "Certamente, isso será melhor, meu filho!"
Angelo não será batizado, porque terá a escolha de saber o que é melhor para si, mas Você dirá se quer ou não indicar o caminho de algum lado espiritual para ele.
Antes de tudo, Angelo será um homem educado, e não dessas crianças atuais, que gritam e batem nos pais.
Angelo, desde já é amado, mais do que qualquer outro ser deste mundo, por mim.
Não sei se meu filho será uma produção independente. Isso vai depender de Você.
Mas, já me vejo grávida, com um sorriso perfeito em meus lábios ao vê-lo me chamar de Mãe, pela primeira vez.
E já me vejo plena ao receber Angelo em meus braços.
Angelo Alba: meu rebento e minha felicidade!
Ivna Alba
Quarta-feira, 3 de Junho de 2009
Santo MP3!!!
Eu agradeço todos os dias ao homem ou a mulher santo/a que criou o MP3!
Vocês, leitores, podem até pensar:
- Mas, já faz tempo que isso existe.
Claro que sim, já tive inclusive um de 128MB, mas a tecnologia é outra coisa bendita. Investir dinheiro em roupa? Sapato? Cabelo? Unha? Depilação? É bom, vez em quando, mas juntar o seu vil metal e comprar aquele celular com tudo que você quer, de mais ultra, super, power, hiper moderno é a melhor coisa que existe, em minha opinião.
Pelo menos para mim, que adoro ficar repetindo uma música que amo. Coisa que a maioria das pessoas reclama horrores. Esse ERA um dos meus maiores defeitos, para as pessoas que conviviam comigo - minha irmã que acompanha este blogger vai ratificar com muita veemência, ao ler isso aqui - mas que graças ao MP3, isso deixou de existir.
O máximo que pode acontecer é a audição ficar um pouquinho estragada, mas fazer o que? Tudo tem um preço.
Não tem nada que pague você poder andar pelas ruas e não precisar ouvir certos sons desagradáveis, como carrinhos de Cd's piratas tocando aquele Axé miserável.
Faço o meu dia com a minha trilha sonora. A música para mim é uma das coisas mais agradáveis que existem e não há alegria maior quando acho aquele som na Internet, baixo, passo para o celular e posso ouvir milhões de vezes, sem me preocupar com a maldita frase:
- Meu Deus! Troque essa música!
Não, caríssimos, o século XXI é tão maravilhoso a ponto de guardar sua individualidade, seus gostos, seus estilos e aquela sua mania, que para muitos pode ser extremamente desagradável, e fazer da sua vida a paz eterna.
As risadas, as conversas, os olhares, o andar das pessoas, a pressa dos carros e a vida ganham a trilha que eu quiser, e com isso, muita coisa fica guardada melhor na lembrança.
Não nego que nada supera também a alegria de sentar ao banco do piano e tocar o que quiser, na hora que desejar.
Cartões de 1, 2, 8, 16GB: isso soa perfeito!
Isso não apenas soa perfeito, é perfeito!
Próxima aquisição?
Meu notebook com bluetooth, para não precisar de fios para passar e repassar o que for desejado.
A tecnologia é insuperável!
E o MP3 é sublime!
Ivna Alba
Vocês, leitores, podem até pensar:
- Mas, já faz tempo que isso existe.
Claro que sim, já tive inclusive um de 128MB, mas a tecnologia é outra coisa bendita. Investir dinheiro em roupa? Sapato? Cabelo? Unha? Depilação? É bom, vez em quando, mas juntar o seu vil metal e comprar aquele celular com tudo que você quer, de mais ultra, super, power, hiper moderno é a melhor coisa que existe, em minha opinião.
Pelo menos para mim, que adoro ficar repetindo uma música que amo. Coisa que a maioria das pessoas reclama horrores. Esse ERA um dos meus maiores defeitos, para as pessoas que conviviam comigo - minha irmã que acompanha este blogger vai ratificar com muita veemência, ao ler isso aqui - mas que graças ao MP3, isso deixou de existir.
O máximo que pode acontecer é a audição ficar um pouquinho estragada, mas fazer o que? Tudo tem um preço.
Não tem nada que pague você poder andar pelas ruas e não precisar ouvir certos sons desagradáveis, como carrinhos de Cd's piratas tocando aquele Axé miserável.
Faço o meu dia com a minha trilha sonora. A música para mim é uma das coisas mais agradáveis que existem e não há alegria maior quando acho aquele som na Internet, baixo, passo para o celular e posso ouvir milhões de vezes, sem me preocupar com a maldita frase:
- Meu Deus! Troque essa música!
Não, caríssimos, o século XXI é tão maravilhoso a ponto de guardar sua individualidade, seus gostos, seus estilos e aquela sua mania, que para muitos pode ser extremamente desagradável, e fazer da sua vida a paz eterna.
As risadas, as conversas, os olhares, o andar das pessoas, a pressa dos carros e a vida ganham a trilha que eu quiser, e com isso, muita coisa fica guardada melhor na lembrança.
Não nego que nada supera também a alegria de sentar ao banco do piano e tocar o que quiser, na hora que desejar.
Cartões de 1, 2, 8, 16GB: isso soa perfeito!
Isso não apenas soa perfeito, é perfeito!
Próxima aquisição?
Meu notebook com bluetooth, para não precisar de fios para passar e repassar o que for desejado.
A tecnologia é insuperável!
E o MP3 é sublime!
Ivna Alba
Terça-feira, 26 de Maio de 2009
O romper dos sons
- Onde?
- Naquele restaurante chinês, no segundo piso do shopping.
- Aquele da semana passada?
- É. Tá bom para você?
- Bem, se você quer lá, pode ser sim.
- Quero saber se fica bom para você.
- Fica, mas tem que ser uma hora cravada, tá?
- Tudo bem. Pelo menos, você conseguiu se decidir em algo.
- De novo, Ana Lúcia? Começou cedo?
- Não, não. Foi apenas uma observação... Nada demais.
- Tá certo.
- Até mais tarde, Ângelo!
- Até, meu amor!
******************************* Ângelo
Desligara o telefone.
Ela havia sido mais rápida que ele, ou apenas os beijos de despedida não fizessem mais parte do cansativo repertório dela, assim como os outros trejeitos carinhosos.
Ele deixara beijos ao léu, para que o colega ao lado não suspeitasse que a mulher amada fora objetiva e clara.
E foi além, disfarçando um derretimento em formas de juras de amor dela por ele.
Botou o aparelho no gancho, arrumou os papéis, o mouse-pad, a cadeira, o teclado do computador, soltou um longo suspiro, constatando que tudo estava em prumo e ele no rumo.
****************************** Ana Lúcia
- Até mais tarde, Ângelo!
- Até, meu amor!
A mão e o braço deslizaram inconscientemente até o aparelho e o estampido do fone no gancho lhe soou forte como um gongo.
Olhou para o relógio: faltava meia hora para o meio-dia, levantou, pegou a bolsa, o casaco e deixou tudo como estava em sua cabeça.
- Doutora Ana Lúcia?
- Sim, sou eu, pois não?
- Correspondência. Preciso que assine aqui.
O papel cheio de códigos, a barra de numerais embaralharam a visão. Pensou em Ângelo, pelo menos naquele dia e situação não deveria deixá-lo esperando, e sua consideração final mostrar-lhe-ia todo o respeito que nutrira uma vez por aquele redator de casos policiais.
"Redatorzinho amarelo..." - pensava consigo e se ria de todo o apelido que a levara até ali, exatamente àquele ponto entre a porta do elevador, o papel cheio de números, a caneta e o suor requentado e gorduroso do carteiro de olhos cor-de-mel e dedos borrados de tinta azul.
- Doutora?
- Por favor, deixe com minha estagiária, ela assinará.
- Mas...
A porta do elevador fechou súbita, deixando o mau cheiro para trás, recortado por muitos andares, esquecido pelo aço da cabine e tijolos embalsamados de irrealidade e concreto.
******************************Da gênesis
Ana Lúcia casou-se "eternamente" apaixonada por Roberto.
Advogada e engenheiro civil.
Ela continuou o que era, ele transformou-se em um obeso e poderoso empresário do ramo da construção.
Casaram-se e decidiram contribuir com a espécie humana, mas ele era estéril. Não que ela se importasse nos primeiros dois anos, mas ir aos chás de bebês das amigas lhe levava aos prantos, sempre que entrava no carro, na volta para casa.
Roberto entendia os olhos inchados e as monossílabas.
Ana Lúcia fartava-se em lencinhos de papel, e ao fim lá estava o calmante e dezenas de lenços amassados no cesto de lixo do banheiro. Por sua vez, o marido engolia o cowboy cinco vezes seguidas e pensava em qual seria o jogo do domingo, ou o seu mais novo empreendimento.
Durante cinco anos, dois meses, três semanas e um dia, Ana Lúcia sofreu e trabalhou, até o momento em que conhecera Ângelo - o redatorzinho amarelo - na festa de inauguração do luxuoso residencial de Roberto.
O jornalista e a advogada encantaram-se de primeira piscadela, até o último beijo daquela noite. Porque ambos não tiveram ressalvas.
Desejo é desejo e a carne é fraca.
O caso ia bem, até que ela engravidou. E mesmo sem saber, abortara na terceira semana de gestação.
- Seu útero está retorcido, Ana.
- Como assim?
- Você abortou.
- Impossível! O Roberto é estéril.
- É difícil, mas as vezes pode acontecer de vingar em uma ou duas tentativas.
- Grávida?!? - ela sentiu o rosto ferver, uma sensação de vazio e frio tomou-lhe conta do peito e entranhas. "Incompetente, impotente!" - um misto de consciência lhe xingava e devorava o resto de amor próprio.
Ali mesmo ela abriu os pulmões e dilacerou-se.
A médica tentou reconfortá-la, porém foi em vão. Calmante e lencinhos: a receita de Ana Lúcia contra os infortúnios, e que desta vez não resultou em nada.
A crise foi forte.
Os braços de Ângelo a confortariam.
E todo penso é torto. Ele não fez alardes, nem entrou em choque, apenas recebera a tragédia como quem ouve sobre a alta do dólar.
- Isso não daria certo, meu amor.
- O que?
- Ana, você é casada.
- E o que tem?
- Ainda quer que eu lhe explique?
- Ângelo, era um filho nosso.
- Ana, não existe espaço para um filho na nossa relação. Eu já lhe falei sobre isso.
- Como é? Acabo de perder nosso filho e você é insensível ao ponto de vir com essa conversinha racional para cima de mim? E o seu amor profundo e incondicional? E suas declarações? Onde estão, hein Ângelo? Estou sofrendo, sabia? Mas você liga? Não! Você não liga!
- Mulher, para se ter um filho é preciso ser racional, coisa que você não está sendo agora.
- Seu estúpido, grosso, imbecil, desumano!
- Ana! Pára e me ouve!
- Não quero ouvir nada de você. Nada!
- Ana, meu amor, me escuta!
- Largue meu braço, senão eu lhe mordo! A partir de hoje pode cantar em outra praça, seu jornalista medíocre!
***************************Cantando na mesma praça
Meia dúzia de ramalhetes brancos e vermelhos durante um mês e Ana Lúcia voltou a frequentar os lençóis do redatorzinho amarelo.
Ela esvanecia de prazer, mas os tempos mudaram demais.
Os sonhos eram quebrantáveis bolhas de sabão e ela sabia da outra face do amante.
Voltara apenas, porque em casa perdera a competição e os poucos carinhos para o futebol, o cowboy e as garotinhas da internet.
- Venha viver comigo.
Ela ficava em silêncio e sempre arrumava uma outra história ou desculpa, enquanto Ângelo lhe entornava dezenas de perdões.
Aquilo estava amargo e dissonante demais, para a sua Berceuse.
***************************O quebrantável romper dos sons
Cinco minutos atrasada.
Ele chegara e servia-se, enquanto conversava com uma moça esguia à sua frente. Se tivesse uns vinte e oito anos era muito. Ambos riam entusiasmados com toda e qualquer bobagem.
Ana Lúcia não se atreveu a dar mais nenhum passo e ficou estagnada, observando e, por um instante, mais breve que fosse, ela sentiu-se confiante para fazer o que viera fazer ali.
Mais dois minutos, a mulher de 36 anos saía do shopping e se sentia plena.
Ele abria o bilhete entregue por um rapaz da limpeza da praça de alimentação.
Do riso ao mais profundo silêncio.
Ângelo quedou-se absorto pelas palavras secas e duras, perdendo o rumo e o apetite.
****************************Os sons
Em abril, do ano seguinte, Ana Lúcia abria a porta do seu novo apartamento, trazendo nas mãos várias sacolas de supermercado.
Cantarolava "A felicidade" e nunca fora tão feliz com sua barriga de nove meses.
Ouvia músicas em alto e bom som.
Comia brigadeiro na panela.
Sorria para o espelho, apalpando os seios e pensava: "Como haviam crescido".
Chorou a plenos pulmões ao sentir seu filho em seu peito, pela primeira vez.
Desta vez, sem receitas contra infortúnios.
Ivna Alba
- Naquele restaurante chinês, no segundo piso do shopping.
- Aquele da semana passada?
- É. Tá bom para você?
- Bem, se você quer lá, pode ser sim.
- Quero saber se fica bom para você.
- Fica, mas tem que ser uma hora cravada, tá?
- Tudo bem. Pelo menos, você conseguiu se decidir em algo.
- De novo, Ana Lúcia? Começou cedo?
- Não, não. Foi apenas uma observação... Nada demais.
- Tá certo.
- Até mais tarde, Ângelo!
- Até, meu amor!
******************************* Ângelo
Desligara o telefone.
Ela havia sido mais rápida que ele, ou apenas os beijos de despedida não fizessem mais parte do cansativo repertório dela, assim como os outros trejeitos carinhosos.
Ele deixara beijos ao léu, para que o colega ao lado não suspeitasse que a mulher amada fora objetiva e clara.
E foi além, disfarçando um derretimento em formas de juras de amor dela por ele.
Botou o aparelho no gancho, arrumou os papéis, o mouse-pad, a cadeira, o teclado do computador, soltou um longo suspiro, constatando que tudo estava em prumo e ele no rumo.
****************************** Ana Lúcia
- Até mais tarde, Ângelo!
- Até, meu amor!
A mão e o braço deslizaram inconscientemente até o aparelho e o estampido do fone no gancho lhe soou forte como um gongo.
Olhou para o relógio: faltava meia hora para o meio-dia, levantou, pegou a bolsa, o casaco e deixou tudo como estava em sua cabeça.
- Doutora Ana Lúcia?
- Sim, sou eu, pois não?
- Correspondência. Preciso que assine aqui.
O papel cheio de códigos, a barra de numerais embaralharam a visão. Pensou em Ângelo, pelo menos naquele dia e situação não deveria deixá-lo esperando, e sua consideração final mostrar-lhe-ia todo o respeito que nutrira uma vez por aquele redator de casos policiais.
"Redatorzinho amarelo..." - pensava consigo e se ria de todo o apelido que a levara até ali, exatamente àquele ponto entre a porta do elevador, o papel cheio de números, a caneta e o suor requentado e gorduroso do carteiro de olhos cor-de-mel e dedos borrados de tinta azul.
- Doutora?
- Por favor, deixe com minha estagiária, ela assinará.
- Mas...
A porta do elevador fechou súbita, deixando o mau cheiro para trás, recortado por muitos andares, esquecido pelo aço da cabine e tijolos embalsamados de irrealidade e concreto.
******************************Da gênesis
Ana Lúcia casou-se "eternamente" apaixonada por Roberto.
Advogada e engenheiro civil.
Ela continuou o que era, ele transformou-se em um obeso e poderoso empresário do ramo da construção.
Casaram-se e decidiram contribuir com a espécie humana, mas ele era estéril. Não que ela se importasse nos primeiros dois anos, mas ir aos chás de bebês das amigas lhe levava aos prantos, sempre que entrava no carro, na volta para casa.
Roberto entendia os olhos inchados e as monossílabas.
Ana Lúcia fartava-se em lencinhos de papel, e ao fim lá estava o calmante e dezenas de lenços amassados no cesto de lixo do banheiro. Por sua vez, o marido engolia o cowboy cinco vezes seguidas e pensava em qual seria o jogo do domingo, ou o seu mais novo empreendimento.
Durante cinco anos, dois meses, três semanas e um dia, Ana Lúcia sofreu e trabalhou, até o momento em que conhecera Ângelo - o redatorzinho amarelo - na festa de inauguração do luxuoso residencial de Roberto.
O jornalista e a advogada encantaram-se de primeira piscadela, até o último beijo daquela noite. Porque ambos não tiveram ressalvas.
Desejo é desejo e a carne é fraca.
O caso ia bem, até que ela engravidou. E mesmo sem saber, abortara na terceira semana de gestação.
- Seu útero está retorcido, Ana.
- Como assim?
- Você abortou.
- Impossível! O Roberto é estéril.
- É difícil, mas as vezes pode acontecer de vingar em uma ou duas tentativas.
- Grávida?!? - ela sentiu o rosto ferver, uma sensação de vazio e frio tomou-lhe conta do peito e entranhas. "Incompetente, impotente!" - um misto de consciência lhe xingava e devorava o resto de amor próprio.
Ali mesmo ela abriu os pulmões e dilacerou-se.
A médica tentou reconfortá-la, porém foi em vão. Calmante e lencinhos: a receita de Ana Lúcia contra os infortúnios, e que desta vez não resultou em nada.
A crise foi forte.
Os braços de Ângelo a confortariam.
E todo penso é torto. Ele não fez alardes, nem entrou em choque, apenas recebera a tragédia como quem ouve sobre a alta do dólar.
- Isso não daria certo, meu amor.
- O que?
- Ana, você é casada.
- E o que tem?
- Ainda quer que eu lhe explique?
- Ângelo, era um filho nosso.
- Ana, não existe espaço para um filho na nossa relação. Eu já lhe falei sobre isso.
- Como é? Acabo de perder nosso filho e você é insensível ao ponto de vir com essa conversinha racional para cima de mim? E o seu amor profundo e incondicional? E suas declarações? Onde estão, hein Ângelo? Estou sofrendo, sabia? Mas você liga? Não! Você não liga!
- Mulher, para se ter um filho é preciso ser racional, coisa que você não está sendo agora.
- Seu estúpido, grosso, imbecil, desumano!
- Ana! Pára e me ouve!
- Não quero ouvir nada de você. Nada!
- Ana, meu amor, me escuta!
- Largue meu braço, senão eu lhe mordo! A partir de hoje pode cantar em outra praça, seu jornalista medíocre!
***************************Cantando na mesma praça
Meia dúzia de ramalhetes brancos e vermelhos durante um mês e Ana Lúcia voltou a frequentar os lençóis do redatorzinho amarelo.
Ela esvanecia de prazer, mas os tempos mudaram demais.
Os sonhos eram quebrantáveis bolhas de sabão e ela sabia da outra face do amante.
Voltara apenas, porque em casa perdera a competição e os poucos carinhos para o futebol, o cowboy e as garotinhas da internet.
- Venha viver comigo.
Ela ficava em silêncio e sempre arrumava uma outra história ou desculpa, enquanto Ângelo lhe entornava dezenas de perdões.
Aquilo estava amargo e dissonante demais, para a sua Berceuse.
***************************O quebrantável romper dos sons
Cinco minutos atrasada.
Ele chegara e servia-se, enquanto conversava com uma moça esguia à sua frente. Se tivesse uns vinte e oito anos era muito. Ambos riam entusiasmados com toda e qualquer bobagem.
Ana Lúcia não se atreveu a dar mais nenhum passo e ficou estagnada, observando e, por um instante, mais breve que fosse, ela sentiu-se confiante para fazer o que viera fazer ali.
Mais dois minutos, a mulher de 36 anos saía do shopping e se sentia plena.
Ele abria o bilhete entregue por um rapaz da limpeza da praça de alimentação.
Do riso ao mais profundo silêncio.
Ângelo quedou-se absorto pelas palavras secas e duras, perdendo o rumo e o apetite.
****************************Os sons
Em abril, do ano seguinte, Ana Lúcia abria a porta do seu novo apartamento, trazendo nas mãos várias sacolas de supermercado.
Cantarolava "A felicidade" e nunca fora tão feliz com sua barriga de nove meses.
Ouvia músicas em alto e bom som.
Comia brigadeiro na panela.
Sorria para o espelho, apalpando os seios e pensava: "Como haviam crescido".
Chorou a plenos pulmões ao sentir seu filho em seu peito, pela primeira vez.
Desta vez, sem receitas contra infortúnios.
Ivna Alba
Sexta-feira, 22 de Maio de 2009
Trague, mas não solte!
Esse título precisa tanto de uma exclamação, quanto preciso de uma paixão hoje. Paixão? Não, eu diria de um amor que seja possível. Não me interpretem tão mal assim. Alguns erram hoje, acertam amanhã e assim a vida é feita de momentos felizes, eternos, ruins e horrendos.
Quiçá eu tenha acertado na dose, mas errado o alvo, da primeira vez. E agora?
Já se permitiram não amar, alguma vez? É o que pode existir de mais desunamo na vida. E o pior, destrutivo consigo mesmo.
Se é para ficar sozinho, que se faça, mas nunca se diga: - Por hoje chega! ou: - Fechado para balanço!
Se é balanço que se quer fazer, o faça, mas deixe novas mercadorias entrarem na sua bodeguinha, talvez uma delas faça sucesso e lhe renove os ares, dê a você novas esperanças, lhe faça regozijar um pouco mais a vida e dos momentos felizes e inesquecíveis.
Estou deixando que ele me bata à porta dessa vez.
Acredito merecer um pouquinho de sorriso, diante de dias tão pesados.
E onde fica o trago nessa parte?
Exatamente nisso: viver o possível, sabendo que ele é impossível.
Contudo, será realmente impossível? E quem o saberá?
A construção de conjecturas em minha mente é como a Torre de Babel. Parece nunca acabar e some em meio às nuvens que carrego dentro do peito.
Pelo menos, dessa vez, sei que estou me permitindo ao amor, à paixão, mas sem chegar a tão alto mar.
Ivna Alba
Quiçá eu tenha acertado na dose, mas errado o alvo, da primeira vez. E agora?
Já se permitiram não amar, alguma vez? É o que pode existir de mais desunamo na vida. E o pior, destrutivo consigo mesmo.
Se é para ficar sozinho, que se faça, mas nunca se diga: - Por hoje chega! ou: - Fechado para balanço!
Se é balanço que se quer fazer, o faça, mas deixe novas mercadorias entrarem na sua bodeguinha, talvez uma delas faça sucesso e lhe renove os ares, dê a você novas esperanças, lhe faça regozijar um pouco mais a vida e dos momentos felizes e inesquecíveis.
Estou deixando que ele me bata à porta dessa vez.
Acredito merecer um pouquinho de sorriso, diante de dias tão pesados.
E onde fica o trago nessa parte?
Exatamente nisso: viver o possível, sabendo que ele é impossível.
Contudo, será realmente impossível? E quem o saberá?
A construção de conjecturas em minha mente é como a Torre de Babel. Parece nunca acabar e some em meio às nuvens que carrego dentro do peito.
Pelo menos, dessa vez, sei que estou me permitindo ao amor, à paixão, mas sem chegar a tão alto mar.
Ivna Alba
Terça-feira, 14 de Abril de 2009
Sangrar é respirar
Essa mesma massa, submersa nas suas vidinhas simples, e que se basta, resguarda um âmago que se move freneticamente, diverso de cada um...
Igual, porém, ainda sim diverso...
Ivna Alba
Igual, porém, ainda sim diverso...
Ivna Alba
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