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Ensaio do ato de negar-se

Quando, exatamente, começamos a negar nossa essência pelas pessoas, coisas e pela própria exigência das nossas existências? Quando?  É difícil descobrirmos isso e quando nos damos conta, o nosso devir já está embalsamado naquela lacuna mais profunda das nossas memórias. E quanta infelicidade isso traz...  A pergunta básica, "Quem sou eu?", que muitas vezes não encontra resposta, também não a obtem, pois já não encontra a essência perdida pelo mesmo ato de negar-se.  As vezes, mais vale uma liberdade sozinha, que outra conjunta.  Acredito, que ao sentir essa vontade de potência que ressurge em nosso âmago, essa vontade de sentir-se livre das negações a nós mesmo, é a hora de partir. É a hora de dizer adeus, sem desculpas, nem remorsos e corações repletos de esperanças saudáveis.  Por que vale a pena ser feliz consigo mesmo e nunca negar sua essência e suas opiniões! Tom Jobim cantou: amor em paz.  E desejo a solidão em paz! Ivna Alba

Eu sou contra!

Certa vez me disseram que, atualmente, o mercado de trabalho procura pessoas com um único foco. Pois bem, eu sou contra! Até onde sei, isso se refere ao modelo antigo de demanda profissional, onde cada um tinha sua formação e nem precisa de pós-graduação e, as vezes, um técnico já contava. Todos se formavam, prestavam um concurso público - bem menos concorrido - passavam, ou se engajavam em empresas privadas e trabalhavam em um só ofício, até que a merecida aposentadoria chegava, batia-lhe a porta e eram felizes para sempre, até que a morte os separasse. O que eu vejo, hoje em dia, são pessoas que se formam - muitas mesmo não tem o privilégio de passar por uma universidade e outras não se interessam - entram numa pós-graduação, em certas ocasiões em áreas diferentes das que se formaram e lutam horrores para entrar no mercado de trabalho. Hoje, o profissional é aquele que tem uma múltipla faceta, de entender o que faz, ampliar seus horizontes em outras áreas, tendo muitas vezes que tr...

Inverso

O que lhe falta tenho de sobra.  O que me inverte lhe converte.  Se a natureza oposta nos causa o conflito, por um lado,  Complementa-nos por outro. Ivna Alba

Já me fiz de sua pele

Laisse-moi devenir L'ombre de ton ombre L'ombre de ta main L'ombre de ton chien Ne me quitte pas Jacques Brel - Ne me quitte pas - Alavanca tua dor, Gomide! - rugiu a velha de dentes amarelados. A porta bateu tal qual o estampido da bala que atingira seu corpo e o desfizera à beira do mundo, da sarjeta e de seus últimos instantes de lucidez. Quem era ele, naquele minuto? Fez-se a pergunta quando viu Anaclélia em curvas e desapegos, em meio ao salão de meia luz, onde o bolero reinava. Ela reinava sobre tudo e todos. Naquele momento, ele se transformou em seu atento e mais sincero amante. Padecia de ciúmes, raiva, ódio e amor. Um amor louco, que durante meses, nenhum par de calças poderia chamá-la para dançar, mas ela pisava em sua honra e dignidade, mostrando que podia mais que ele. Gomide era riquíssimo, mas humilde. Um homem que não se negava o bom coração e amabilidade, mas ao se tratar de Anaclélia, a história era outra. Em seis meses, Gomide conseguiu levar Anaclélia pa...

Persona

Quando descobriu que era livre, prendeu-se em suas amarras. Ivna Alba

Os passos

Ouvia-se pela casa, na madruga, passos e a mão sussurrando na parede, o atrito por entre digitais e formas finas. "O que dói mais - dizia a mulher franzindo a testa, para não cair em prantos - é que não os ouço agora". Saudade enternecida e ensurdecedora... Completamente voraz. Ivna Alba

A estátua de Árgona

Em frio mármore esculpido. Precisamente escalpelado e introduzido na água, cresceu Árgona. De belos seios, curvatura paradoxal e de tez prateada ao luar. Por entre os dedos, segurando os véus que lhe revestiam o púbis e parte das pernas, em todas as tardes de densa neblina, recebia flores, frutos e o sangue de animais lhe decaíam entre as mórbidas carnes. Árgona nasceu sem saber amar, apenas conhecendo o "ser amada". Em bela semana primaveril, quando os júbilos de pássaros e farfalhar de folhas se ouviam perenes, sentiu sua primeira flechada. Cravou-lhe o peito juvenil, outra raspou-lhe os olhos e mais uma sentou seu véu em mil pedaços, em pleno espaço e em meio aos prantos que não poderiam ser ouvidos, Árgona caiu prostrada por outro tremor. Ela que nunca olhara para cima, agora enternecia-se com os olhos azuis e pueris de um jovem de 25 anos. A terra a sobrepôs. Após cem anos, seu seio ainda permanece intacto. Ivna Alba