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Um homem sem nome II

Um homem sem nome acorda em meio à madruga muda. Ele não precisa ter nome para seguir o modelo das máquinas. São quatro da manhã. Não lembra do que sonhou. Sensação terrível esta! Uma sensação de que uma parte íntima e secreta fora amputada. Lembra apenas que fumava no sonho. Olha o maço na beirada do criado-mudo - um companheiro inseparável há cinco anos, desde que decidiu cortar a relação. Convenções da sociedade, normas para uma vida saudável e a certeza de ter o mesmo código de barras. Você não é mais um produto danificado e pode passar no Humanometro. Talvez, aquele alcatrão lhe fizesse menos mal que a fumaça dos carros, na Consolação às oito da manhã. Sufocado, pensa em tudo e não conclui nada. Pensa em fumar, treme, sua, geme e toma água - outro paliativo para suportar a ansiedade. Debruça-se na janela - um vento pelo amor - mas, nada... E se chegar atrasado? E se o despertador não tocar? E se o pagamento não cair? E se não conseguir voltar a dormir? E se não render no ...

Amor

Um dia ponto cheio , em outro ponto atrás ! Ivna Alba

A garoa

Cristalina. Fria e fina. Tão breve sinto tua chegada e já sorrio meio de lado, como mocinha ingênua que recebe uma flor de jardim do primeiro namorado. Eis que te vejo nua e crua, avessa e apaixonada. Alvoraçada, mas sempre serena, quando sabes que estou ao teu encalço. Minha alma é tua, teu cerne é meu! Escolhi tua carne e sopro, como minha última morada. Ivna Alba À cidade de São Paulo, sempre amante minha, sempre devota tua!

Não é do mais, mas é do mesmo

Faz dias que estou querendo o mesmo gosto, o mesmo toque, o mesmo sangue, o mesmo cheiro, o mesmo banho, a mesma música, o mesmo samba, o mesmo grito, o mesmo choro, o mesmo molho, a mesma rua, a mesma pele nua e tua. Dizem, as más línguas, que isso se chama saudade. Ivna Alba

Carlos e Sofia

Uma tarde dessas em que se olha como o tempo caminha lento, reencontrei Carlos e Sofia. Há um tempo tentava resolver seus problemas, mas abandonei. "Não sou mais a solução para vocês!" E dei-lhes as costas. Ficaram mudos, sumiram, escafederam-se em um mundo totalmente em branco para mim. E nesse mesmo tempo, que foi lento, reencontrei-os cálidos, afundados em um ponta esquecida, mas não menos viva. "Carlos e Sofia merecem um final, que não seja feliz, extraordinário, mas que tenham suas soluções, fascinações e um fim digno da vida de dois personagens que adormeceram, amadureceram e brotaram implacáveis! Ivna Alba

Desatamos nós

Um sopro teu esconde nossos desesperos. Uma partida tua recobra em minhas histórias que nascemos sós e tão sós nos despediremos. Para que criamos nós se serão desatados? - É o medo, Dalma... É por medo. A mulher pegou a trouxa com cinco pares de vestidos encardidos, pôs nos ombros e disse rangendo os dentes: - Aos diabos, teu medo, vagabundo! Desta vez, Dalma não tinha a fúria nos olhos, muito menos largara a porta aberta. Ivna Alba

Chica Bregídia

Cada ser humano carrega nas mãos o dom de realizar ações perfeitas e incorrigíveis. Vale escolher qual linha delas seguir. Existia na cidade de Ourives Velho, uma senhorinha negra, esquálida e de olhos sonolentos, lenço nos cabelos e pés dez para as duas, caminhando em ritmo de valsa. Quando tinha cinco anos, gritaram em meio à fazenda: - Semo livres! A mãe chorou com ela ao colo na cozinha e ninguém soube o que fazer dali em diante. A liberdade cobra o preço de se ter e do que se fazer com ela, quando esta lhe é tomada desde sempre. Chica aprendeu tudo que se poderia aprender, mas foi ao peso do ferro de passar que calejou as linhas das mãos finas e frias. O gosto pelo calor do fogo, o fogo na brasa, a brasa no carvão. As tramas saltavam e os linhos e fazendas ganhavam brilho e nova vida ao toque do ferro de Chica Bregídia. Não queriam saber de léguas, seus clientes. De posses, ou não, ela cobrava de acordo com os dobrões que cada um tinha no bolso; o importante era trilhar o ...